sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

É isso ai...

“Sua vida reproduz seu pensamento.”

Semana passada, pensei em cortar meu cabelo e resolvi dar uma volta na cidade à procura do profissional em questão e como não sou exclusivo de nenhum, resolvi passear na cidade ao encontro de algum. O interessante é que em nossa cidade, de uns tempos para cá, surgiram tantos salões de beleza (antes conhecidos como Barbearia) que fica até difícil escolher um, a não ser que você já esteja acostumado com alguém para cortar suas madeixas. O mais interessante: vi salões como verdadeiros pontos turísticos. Você estranha? Salões dos mais variados tipos e decorações, um mais bonito que o outro, cada qual com sua peculiaridade. Portanto, dignos de serem visitados. E assim, além de salões, pontos turísticos, que tal a ideia? Bom, isso é outra história.

No passei me lembrei do livro Mogi das Cruzes de Antigamente, de Isaac Grimberg, 1964 – Editora Saraiva. Nele, consta a história da Greve dos Barbeiros que ocorreu em nossa cidade, por volta de 1897, isso mesmo: 1897. Você acredita nisso? Uma greve de barbeiros, pois é o que está no livro de Grimberg: “...Quem viveu em Mogi das Cruzes pelos idos de 1897, deve estar lembrado da “greve dos barbeiros”. E deve ter assistido, então, a um grande espetáculo de solidariedade e de união que bem demonstra o espírito independente dos mogianos.

Eram então três os fígaros estabelecidos. Um dia, os três profissionais mandaram distribuir pela cidade uns boletins em que comunicavam à população que devido ao encarecimento absurdo da vida nos últimos tempos, resolviam aumentar o preço da barba de duzentos para trezentos réis. Esperavam que o povo, compreendesse etc...

Mas o povo não compreendeu.

E à tardinha, um grande número de mogianos reuniu-se na sala de visitas do Hotel Central, de propriedade dos progenitores do Sr. Emílio Navajas. Improvisou-se desde logo uma assembleia, falaram diversos oradores (o Sr. Emílio Navajas, o Sr. Leopoldo Sant’Anna, o velo Motta – irmão do Barão de Jaceguai – e outros) e ficou resolvido que se fizesse um abaixo assinado com contribuições para o custeio da vinda de um barbeiro de São Paulo.

A lista correu a cidade – as contribuições foram fixadas em dez tostões – e já no dia seguinte o Sr. Eugênio Berti seguia para a Capital com o dinheiro arrecadado e a incumbência de trazer um bom barbeiro.

Na mesma noite, à chegada do noturno da Central, a estação estava coalhada de gente. O trem parou, desceu o Sr. Eugênio Berti e logo atrás um velho alto e magro, de sobretudo preto e cachine branco e uma valise na mão.

Era o barbeiro.

O entusiasmo foi geral. A banda de música irrompeu numa vibrante marcha militar e o povo fez grande cortejo, com o velho barbeiro à frente, atrapalhado, coitado, com o inesperado da manifestação...

Na manhã seguinte o profissional iniciou o seu trabalho e formou-se uma grande fila à frente da improvisada barbearia. Algumas horas mais tarde, porém, já se anunciava que os três fígaros da cidade haviam decidido voltar atrás na sua deliberação. A barba continuaria a duzentos réis e o velho profissional da Capital podia retornar aos seus pagos.

No Hotel Central, à noite, os mogianos comentavam, felizes, a vitória sensacional. E o velho Motta, que era poeta e que havia escrito durante o dia inúmeros versos ridicularizando os barbeiros, leu o boletim em altas vozes e encerrou o assunto com esta quadra:

A versão da versalhada

Ficará como lição.

Que o povo é soberano,

Não tolera imposição!”

Imaginem se acontecesse nos dias de hoje!


Até a próxima!