segunda-feira, 6 de maio de 2013

Festa do Divino Espirito Santo - Origens da Festa


Introdução

Uma das vilas mais antigas do planalto piratiningano, Santa Ana das Cruzes de Mogi surgiu nas terras de Gaspar Vaz, o seu fundador, com povoamento iniciado por volta de 1601. Otimamente situada nas partes mais elevadas circundantes aos baixios alagadiços do Anhembi, sobre uma lomba, ao longo de uma boa aguada, o riacho Mogi Mirim, dormitava aos pés da linda Serra do Tapety que, soberana, dominava a paisagem. Em 1611, com o Floral, o povoado obtinha o predicamento de vila.
No Estado de São Paulo, ela inclui-se entre as muitas cidades brasileiras que souberam manter vivos e trazer até nós, com surpreendente preservação, a beleza do folclore e o fulgor da religiosidade da gente simples do povo, que estão presentes na multissecular Festa do Divino Espírito Santo.


A Festa do Divino

É uma festa da Igreja Católica em que se celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a Virgem Maria, reunidos no cenáculo, marcando o nascimento da Igreja. É a festa de Pentecostes, que quer dizer qüinquagésimo dia depois da Páscoa, sendo, pois, uma festa de louvor a Deus, muito bonita e muito alegre. As festividades têm inicio numa Quinta feira, quando era comemorada a Festa da Ascensão do Senhor (atualmente transferida para o Domingo), durando dez dias essa fase que podemos chamar de preparatória. Do ponto de vista da liturgia da Igreja, portanto, a festa propriamente dita é só no Domingo de Pentecostes.

A Importância da Festa do Divino

Ela tem uma dupla importância: religiosa e cultural. Religiosa, pela louvação ao Espírito Santo, nosso Pai da caridade, nosso protetor, nosso consolador, nosso Paráclito, que quer dizer, nosso mentor, nosso intercessor. É muito importante, ainda, pela intensa evangelização que se processa desde o período preparatório, com rezadeiras e com os subimpérios. Cultural, por preservar muitas de nossa mais caras tradições, principalmente da gente simples do povo.

Origem da Festa

O culto do Espírito Santo, de acordo com o historiador português Moisés do Espírito Santo, tem origem na Antiguidade. Entre os israelitas, a Festa de Pentecostes era celebrada cinqüenta dias (sete semanas) depois da Páscoa, sendo uma das quatro festas importantes do calendário judaico: Páscoa, Omar, Pentecostes e Colheitas. Ela era conhecida, ainda, com nomes diferentes: das Ceifas, das Semanas, do Dom da Lei, e outros, tendo sido, primitivamente, uma festa agrária dos cananeus (Rodrigues Filho, 1990).
Entre os hebreus, o termo shabüöth faz referencia à festa que começa cinqüenta dias depois da Páscoa e marca o fim da colheita do trigo (Etzel, 1995). Concordamos com este autor, quando diz que “a festa do Divino é um eco das remotas festividades das colheitas” (Etzel, 1995).
Já o culto ao Espírito Santo, sob a forma de festividade, no sentido que iria adquirir mais tarde, se cristaliza no inicio da Baixa Idade Media, na Itália, com um contemporâneo de São Francisco de Assis, o abade Joachim de Fiori (morto em 1202), que ensinava que a ultima fase da historia seria a do Espírito Santo. Suas idéias chegaram à Alemanha e espalharam-se pela Europa.
Em Portugal, no séc. XVI, a festa do Divino já se encontrava incorporada à Igreja, como festividade religiosa. A responsável por essa institucionalização da festa em solo português foi a rainha D. Isabel, esposa do Rei D. Diniz (1279 – 1325), que mandou construir a Igreja do Espírito Santo, em Alenquer (Campos, 1996). Em solo português, ela seria fortemente marcada por influencias de tradições judaicas, muitas das quais chegaram ate nós.
Com o inicio da colonização, ela foi introduzida no Brasil, provavelmente desde o século XVII, com a figura do Imperador do Divino, criança ou adulto, escolhido para presidir a festa. Aqui, ela sempre foi a festa de caráter eminentemente popular, não figurando, no período colonial, entre as quatro festas oficiais que se celebravam por ordem da Coroa. Mas tal era o seu prestigio no inicio do século XIX, que em 1822, segundo Luis da Câmara Cascudo, o ministro Jose Bonifácio escolheu para Pedro I o titulo de Imperador, preferindo-se ao do Rei, porque era muito grande a popularidade do Imperador do Divino, com sua corte solene, dava audiência no Império, com as reverências privativas de um soberano (Campos, 1989).

A Festa do Divino em Mogi das Cruzes

Em 1990, deparamo-nos com uma referencia a uma festa do Divino, acontecida em Jundiaí, que parece ser o mais antigo registro de que se tem noticia. Trata-se de uma carta do capelão João de Morais Navarro, ao Exmo. Sr. Gal. Rodrigues Cezar de Menezes, então na governança da Capitania de São Paulo, datada do sitio da Capela aos 19 de maio de 1723, onde dava contas de providencias tomadas. Iniciava com as seguintes palavras: “Indo ter à festa do Santíssimo Espírito Sancto a Villa de Jundiahy, etc. (Conf. Documentos Avulsos, publicação do Arquivo do Estado). 
O importante, portanto, é se constatar que existem registros da realização de Festas do Divino no interior de São Paulo, desde o inicio do século XVIII. Isso reforça a nossa conclusão de que, sendo a vila de Mogi muito mais antiga do que a de Jundiaí, a Festa do Divino já era comemorada popularmente aqui pelo menos desde o final do século XVII. É, assim, uma das mais antigas do Brasil, com mais de trezentos anos de fé e tradição (Campos, 1996).


Textos: Professor Jurandyr Ferraz de Campos 
Foto: Paulo Pinhal