quarta-feira, 8 de maio de 2013

3° Capitulo da Festa do Divino Espirito Santo - Folia do Divino


 Folia do Divino

É o grupo de cantadores e instrumentistas o qual toca na festa do Divino, principalmente nas Alvoradas e nas Passeatas das Bandeiras. O termo “folia” deve ser tomado no primeiro sentido que registram os dicionários: “dança rápida ao som do pandeiro”, nada tendo de chulo, portanto. Defendem alguns pesquisadores que o termo se origina de “fole”, um instrumento musical utilizado antigamente na Península Ibérica. O nosso grande escritor e folclorista Mario de Andrade quando esteve em Mogi, na festa do Divino de 1936, ficou muito impressionado particularmente com a “entrada dos palmitos”. Num artigo que escreveu a respeito desse assunto, Mario de Andrade explica que, em Portugal, no culto vegetal da primavera que, segundo as suas palavras, ainda “persiste muito vivo na Europa, nas cerimônias ate agora perfeitamente pagãs das Maias”, crianças enfeitadas com flores ou folhas pedem pelas portas, ao som de musica, havendo, ainda, conforme a localidade, o “Senhor Maio”, o “Mestre de Maio”, o “Maio Moço”. Não podemos nos furtar de comparar esses costumes lusos com o grupo da “Folia do Divino”, retratando magistralmente por Jean Baptiste Debret na sua obra “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, na prancha de n° 29. Debret, que viveu no Brasil, de 1816 a 1831, retratou esse aspecto da festa no Rio de janeiro. Tudo aponta para concordarmos com a tese de Mario de Andrade da filiação desta parte da festa do Divino aquelas tradições européias. Analisando aquela prancha, verificamos, no primeiro plano, que o bandeireiro à frente da “folia”, parece ser a própria figura do “Maio Moço”? Pode-se notar, particularmente, o seu singular chapéu todo enfeitado de flores. Está pedindo pelas portas, acompanhado pelo som de musica. Tudo como na descrição de Mario de Andrade. Quanto ao grupo da “folia”, pode-se verificar que todos os seus componentes são meninos. Os instrumentos que aparecem são duas violas, um tambor, um pandeiro e um triângulo; aparece mais um tocador, mas não dá apara se perceber qual o seu instrumento.

Hoje, a “folia” apresenta um instrumental já modificado, não tendo mais triangulo que ainda aqui era usado no inicio do século, segundo depoimento da saudosa Nhá Zefa que, menina, acompanhava seu pai, velho tocador da “folia do Divino” em Mogi. Naqueles tempos, a folia acompanhava o bandeireiro, vencendo a morraria das roças, quase sempre a pé, principalmente na região de Mogi, para tirar a esmola do Divino. Hoje, em nossa região, a folia não tem mais essa função. Ela acompanha, com suas quadrinhas apropriadas e seu pitoresco cantar, em verdadeira oração diante dos altares, a abertura e fechamento do Império, as “Alvoradas” e as Passeatas das Bandeiras. Mas ainda assim, a presença esta ligada à coleta da esmola do Divino, Antigamente, segundo depoimento do Sr. Manoel de Oliveira, o mais antigo devoto do Divino, a “Alvorada” saía para fazer visitas às casas, colhendo esmolas. É claro que, hoje, essa função já não é especifica. Quando os festeiros, de acordo com o que manda a tradição, realizam o primeiro ato oficial da festa abrindo as portas do Império, a folia canta os seguintes versos: Deus vos salve, nobre Império/ Muito bem aperparado/ Aonde está o Espírito Santo/ No seu trono adorado
Igualmente, o ultimo ato da festa é o fechamento do Império pelos festeiros. Nessa ocasião, ela canta a despedida: Divino Espírito Santo/ É nosso Pai Soberano/ Aqui nós todos se despede/ Se Deus quisé até pro ano. Quanta beleza encontramos nessas quadrinhas, que se transformam num verdadeiro hino de louvor ao Divino Rei da Glória! Quem seriam os autores das letras e da linha melódica? Segundo depoimento do mestre Ulisses de Sousa Morais, isso vem de muito tempo, de antes do falecido padrinho João Manoel. Ele se refere ao saudoso mestre João Manoel do Nascimento que, antes da atual folia, durante décadas, com o seu grupo animou as festas do Divino em Mogi.
A folia que nos tem encantado a todos, nos últimos anos, é constituída dos seguintes músicos: mestre – Ulisses de Sousa Morais (viola), contramestre – Vicente da Silva Nascimento (viola), contralto – João Lemes de Oliveira (caixa), 1° tiple – Salvador Cardoso do Nascimento (pandeiro), 2° tiple – Milton da Silva Nascimento (chocalho) (Campos, 1996).  

Passeata das Bandeiras



É o cortejo que sai da Catedral, depois da celebração eucarística da novena, para visitar casas de devotos, principalmente de pessoas idosas e enfermas. Na frente, vão os festeiros, ex-festeiros e a multidão de devotos com suas bandeiras. A folia do Divino também acompanha, para tocar nas casas que são visitadas. Para essas visitas, os violeiros possuem uma infinidade de quadrinhas, sempre apropriadas. Depois de entrar em sua casa, logo após os festeiros, eles podem cantar: Quando ver em sua casa/ Uma bandeira chegar / É o Divino Rei da Glória / Que veio te visitar, eh! (bis). Referindo-se à vela acesa sobre o altar, cantam: Abençoada foi a mão / Que acendeu a vela / E há de ser abençoada / Dessa Bandeira donzela. Eh! (bis). Quando é dada a esmola, eles agradecem: Vamos agradecer a esmola / Que deram pro Rei da Glória / Que deram pro Rei da Glória, eh! (bis) / Há de ser bem ajudado / Todo dia e toda a hora, eh! (bis). Na hora de sair, eles cantam: O senhor e sua família / Licença queira nos dá / O meu Divino vai embora / e nóis queremo acompanhá, eh! (bis) (Campos, 1996).

Entrada dos Palmitos

Trata-se da parte da festa, com mais forte conteúdo folclórico. É um gigantesco cortejo que marca a entrada dos palmitos na cidade. Mario de Andrade, como vimos, no artigo A Entrada dos Palmitos, analisou essa parte do folclore da Festa do Divino, concluindo por fazer a ligação entre ela e o culto vegetal da primavera e formulou a seguinte indagação: de fato, uma tradição me resta esclarecer: os carros de bois usados para o transporte procissional dos palmitos, será simples emprego dos processos regionais de locomoção? E responde, logo adiante: o boi está ligado às tradições vegetais da Maia. Depois de estabelecer uma comparação aproximativa entre os enfeites dos bois na entrada dos palmitos, em Mogi, e o enfeite dos bois nas “Maias” européias, Maria de Andrade, à guisa de conclusão, dá a entender que o emprego dos carros de bois, como parte da “entrada dos palmitos”, é folclore apenas de Mogi das Cruzes. Isso é verdade no que tange a esse aspecto de a cultura ter chegado até nós, mas é valido, no entanto, para o século passado. E é Debret quem nos surpreende, mais uma vez, com valioso esclarecimento a respeito desse ponto, agora para nos dar subsídios para discordar do grande mestre. Numa outra prancha, a de n°. 22, da obra já referida, com o titulo de “ Viveres levados à cadeia pela Irmandade do Santíssimo Sacramento”, deparamo-nos com os mesmos personagens da “ Folia do Divino”, da prancha de n°. 29. Lá estão os irmãos pedintes com os seus relicários e com os saquinhos de esmolas, tendo o símbolo do Divino neles estampado. Vemos, também, as inconfundíveis bandeiras, tendo no topo a figura simbólica da pombinha do Divino. É coisa impressionante constatarmos que este símbolo sagrado do Espírito Santo, as bandeiras do Divino, são hoje exatamente como eram no inicio do século passado que, por sua vez, certamente eram iguais às do século anterior. Observamos que os membros da Irmandade, alias como aparecem em primeiro plano, portanto solenemente duas belas bandeiras, provavelmente fossem os festeiros, pois se distinguem dos demais irmãos, por calçarem botas ate os joelhos. Portanto não temos duvida em afirmar que se tratava da Irmandade do Divino Espírito Santo que, na véspera do dia de Pentecostes, levava abundantes alimentos para os presos, e não da Irmandade do Santíssimo. Mas o que mais nos chama a atenção são os dois carros de bois, que aparecem carregados de carne fresca, toicinho, carne seca, feijões pretos, laranjas e farinha de mandioca, conforme vem indicado no texto de Debret. Mais adiante, diz que os carros vem ornados de ramos de mangueira. Notamos, portanto, que os carros de bois como transporte, na Festa do Divino em Mogi, que tanto impressionaram Mario de Andrade, já eram utilizados no inicio do século passado no Rio de Janeiro e certamente em outras regiões. Mas não ficam só aí as coincidências. Os carros estão enfeitados não com ramos de mangueira, mas, ao que parece, de mandioca. Ou seriam de palmito? Parece-nos identificar, também, empilhados dentro dos carros que já em primeiro plano, palmitos cortados. Infelizmente, o escrito de Debret (certamente por ser ele estrangeiro), alem de falho, é muito lacônico e confuso. Isso, no entanto, não lhe tira o grande valor documental. O que importa é que o registro é notável, dentro das tradições da Festa do Divino: seja pelas figuras da Irmandade, seja pelas bandeiras, seja pelo transporte de viveres em carros de bois, enfeitados com folhas que parecem ser palmeiras. Portanto, podemos concluir que os documentos de Debret confirmam as teorias de Mario de Andrade (Campos, 1996). A entrada dos palmitos representaria, se nos lembramos das origens da festa de Pentecostes, a época da colheita, da fartura, significando a chegada dos alimentos (Rodrigues Filho, 1990). Exatamente esse alimento, o palmito, é que não faltava aqui na região, sendo abundante na mata Atlântida do período colonial. Ate algum tempo atrás, cortadas pela raiz, as palmeiras eram trazidas para a cidade em carros de bois, sendo fincadas nas ruas centrais de seis em seis metros. Antigamente, os palmitos após a festa eram distribuídos entre os devotos, que comiam o miolo em sinal de devoção e fé (Morlini & Kato, 1973). Hoje, o cortejo é aberto com o bandeireiro, um garboso cavaleiro bem enfeitado dentro das tradições da festa, com flores e fitas nas cores branca e vermelha, o qual carrega a Bandeira do Divino. Antigamente, ele era quem comandava as folias pelas roças afora, na coleta de esmolas. Vêm a seguir, com suas coreografias peculiares e cantando orações apropriadas, os grupos folclóricos da cidade: Congada São Benedito, Congada Santa Ifigênia, Marujada Nossa Senhora do Rosário e Moçambique São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Segue-se o Imperador menino, com seu séqüito, vindo logo atrás os casais de festeiros e capitães-do-mastro, secundados pelos ex-festeiros, todos com suas imponentes bandeiras. Logo, a seguir, a legião de alferes, também com suas bandeiras, os grupos escolares etc. Chega da gloriosa Banda Santa Cecília, que há quase um século alegra as festas do Divino. Os grupos de escoteiros seguem na frente, organizando o cortejo. Depois desfilam os carros de bois, em numero de aproximadamente duas dezenas, com bois e carros lindamente enfeitados com fitas e flores-de-papel, vermelhas e brancas. Atualmente, pela proibição do seu corte, ameaçado que está de extinção, os carros são enfeitados com folhas de palmeiras, bem como os postes ao longo do percurso. Este ano teremos uma novidade: os primeiros carros estarão transportando cerca de 1500 mudinhas de palmito, que depois serão distribuídas para as crianças nas escolas, numa contribuição da festa apara a educação ambiental. As crianças se aboletam nos carros, carroças e charretes, numa alegria intensa, portando bandeirolas do Divino. Antigamente, elas sentavam-se sobre os palmitos (Morlini & Kato, 1973). É interessante observar que, ate à festa de 1993, os carros de bois desfilavam depois dos grupos folclóricos e na frente dos festeiros. Entendemos que essa era a tradição, que, no entanto, foi alterada. Seguindo-se aos carros, também enfeitadas, vem um grande numero de carroças e charretes com muitas crianças. Finalizam o cortejo, as varias centenas de cavaleiros do Divino, divididos em grupos com três filas cada um, enfeitados com lenços do Divinos no pescoço e, alguns poucos, com fitas e flores na cores da festa. Há apenas um quarto de século, no entanto, eles eram bem poucos, sendo apenas dezesseis em 1973. o interessante é que, nessa época, participavam também da procissão do dia de Pentecostes, o que não é mais permitido (Morlini & Kato, 1973).

A Procissão do Dia de Pentecostes


O ultimo dia dos festejos, quando a Igreja Católica comemora a festa de Pentecostes, é marcado pela solene procissão em louvor ao Divino Espírito Santo que, partindo da Catedral de Santana, percorre as principais ruas da cidade. É uma das maiores, senão a maior, manifestação religiosa da cidade, da qual participam milhares de devotos. A sua estrutura tem sofrido alguma alteração, mas, nos últimos anos, ela tem se apresentado na seguinte ordem: na frente, abrindo o cortejo, os grupos de Congada, Moçambique e Marujada; a seguir, sempre em fila dupla, as Irmandades de São Benedito, Venerável Ordem Terceira do Carmo, Sagrado Coração de Jesus, Santana e do Santíssimo Sacramento; seguem-se as equipes de rezadeiras, carregando os seus cofrinhos com pedidos dos devotos. No espaço central, entre as duas alas, se postam as jovens portando os símbolos Fé, Esperança e Caridade, seguidas das que levamos cestos com os pombinhos, representando os Dons do Divino; logo atrás, o Sr. Bispo Diocesano, seguido do Imperador menino e seu séqüito, dos festeiros e do Andor do Divino; a seguir, os casais de ex-festeiros e ex-capitães do mastro, todos com suas belas bandeiras, a Banda Santa Cecília, os devotos com suas bandeiras e o povo em geral. Na festa de 1989, teve inicio a montagem de altares nas casas dos devotos, ao longo do percurso da procissão, correspondendo aos sete Dons do Divino. Cada altar é ornamentado na cor do Dom que representa e, quando da passagem da procissão, há uma breve parada, apara que a menina possa soltar a pombinha que representa aquele símbolo. Na ocasião, o Sr. Bispo Diocesano, em cada uma das paradas, faz uma breve alocução sobre o significado daquele Dom para os devotos. Merece menção especial o belíssimo tapete ornamental, executado pelas escolas da cidade e que cobre as Ruas Dr. Paulo Frontin e Dr. Deodato Wertheimer, sobre o qual passa a procissão. Igual menção deve-se fazer para o Andor do Divino, sempre belíssimo e executado com refinado gosto artístico.
   
Texto: Professor Jurandyr Ferraz de Campos
Fotos: Paulo Pinhal

Toda a Bibliografia destes textos estão no Livro: A Festa do Divino em Mogi das Cruzes, Mais de Trezentos anos de Fé e Tradição. Obrigado ao pessoal da Associação Pró-Festa do Divino Espírito Santo por ter cedido 1 exemplar para publicarmos esta historia tão rica e tradicional da nossa Cidade e a todos os Leitores e ao Paulo Pinhal pelas fotos...