sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Capitulo III - As Lendas e o Inventario

As Lendas

A vida de Dona Yayá sempre foi marcada por muitos acontecimentos trágicos, e como sua família era muito conhecida muitas histórias foram surgindo ou sendo modificadas, e com isso foram surgindo lendas sobre Dona Yayá e sua família.

A Menina da Pipóca

Quem for ao Cemitério de São Salvador, em Mogi das Cruzes, no dia de Finados, verá quantas mães levam seus filhinhos para visitar e levar flores para a “menina da pipóca” – ali sepultada em 1891.
Naquele ano a criança morreu .Seus pais mandaram erirgir-lhe um rico túmulo de mármore, sobre o qual está a linda escultura de uma criancinha deitada e em suas mãos algumas flores , também de mármore.
O fato é que o povo não viu flores nas mãozinhas da escultura, pois elas ficaram parecendo pipócas. E daí nasceu a lenda que desde então repete-se ano apos ano e que a todos os Finados leva o cemitério de Mogi um grande cortejo de mães, para rezar pelos seus filhos junto ao pequenino túmulo.

E contam as mães que a criança morreu por castigo:



Passava a procissão de São Benedito.Mas como os pais não queriam que a família homenageasse o santo preto, fecharam-se as janelas da casa.
E para distrais a pequenina, que queria ver a procissão, deram-lhe pipóca.Mas foi só a criança botar uma na boca, engasgou-lhe e morreu!...
Nos dias de Finados há verdadeira romaria ao túmulo da criancinha.
E as mães olham as flores da escultura e, inexplicavelmente, vêem as mãozinhas da menina cheias de pipóca.



O Baile das Sexta - Feiras

À rua Senador Dantas, onde está hoje o novo edifício do Instituto Dona Placidina, havia um grande e velho sobrado, com várias janelas e alpendres de ferro batido.Era a residência “na cidade” de ilustre e abonada família mogiana .
Pois o sobrado de Dona Yayá- como era conhecida- deixou muitas histórias .

Ainda há pouco uma senhora contou-nos uma delas:

Quem passasse por ali noite alta, nas Sexta-feiras, veria um belíssimo espetáculo . Um baile dos mais ricos, com grande orquestra e inúmeros casais a rodopiar lindas valsas e afinadas mazurkas.
Nos alpendres , senhoras e senhoritas de longos vestidos e cuidados penteados e gentis cavalheiros de smoking e de casaca.Até a madrugada, quando cessava a música e o baile tinha fim.
Perguntei à minha informante quem eram os dançarinos de tão alegres noitadas.

E ela , com a maior naturalidade :

- Almas do outro mundo- é claro ! ...

O Inventario 

No 9º andar do Fórum da Comarca de São Paulo, na praça João Mendes, funciona a 3ª Vara da Família, exatamente por onde ocorreu, a partir do dia 15 de setembro de 1961, o inventário de Sebastiana de Mello Freire, iniciado com uma certidão de óbito registrada sob o número 13990, folhas 96, livro 25 do subdistrito de Perdizes.
Sexo feminino, cor branca, prendas domésticas, natural de Mogi das Cruzes, solteira, parecem ser características de muitas mulheres que faleceram nos últimos anos na Capital. Mas, com certeza, não bastarão para caracterizar realmente quem era Yayá naquele frio atestado assinado pelo médico Moacyr Tavolaro, dando como causa da morte um mal ainda mais comum: insuficiência cardíaca.
Na verdade, Yayá tinha uma história especial. Não só uma história especial, como também um patrimônio especial.
No seu levantamento de bens constava:

Em São Paulo:
- 27 casas na rua do Hipódromo nos números : 1245, 1253, 1261, 1263, 1271, 1273, 1281, 1293, 1289, 1291, 1297, 1301, 1303, 1309, 1311, 1317, 1319, 1325, 1327, 1333, 1335, 1341, 1343, 1353, 1355, 1363 e 1365;

 - 07 casas na rua Conselheiro Justino nos números: 572, 574, 584, 586, 590, 600 e 602;

- 08 casas na rua Piratininga nos números : 405, 413, 415, 417, 423, 425, 427 e 431;

- 06 casas na rua Visconde de Parnaíba nos números : 693, 1080, 1088, 1090, 1094 e 1100;

- 06 casas na rua Prudente de Moraes nos números : 173, 175, 183, 185, 193 e 197;

- 03 casas na rua Correa de Andrade nos números : 54, 58 e 62;

- 02 casas na rua Pirineus nos números : 117 e 119;

- 03 casas na rua Brigadeiro Galvão nos números: 09, 23 e 31;

- 01 casa na rua Martim Buchard no número 320;

- 01 casa na rua Campos Sales no número 265 ;

- 01 casa na Av. Brigadeiro Luiz Antônio no número 1477;

- 01 casa na rua Maria Antônia no número 199;

- A casa que residia na rua Major Diogo número 353;

- Metade do 8º ao 14º andares do edifício Veneza, na rua Bráulio Gomes no número 107(construído na área antes ocupada pela mansão da rua 7 de abril.

- Em Mogi das Cruzes:

- 01 chácara de 36 alqueires onde está hoje o Centro Cívico ;

- 01 terreno da esquina das ruas Capitão Paulino Freire com a Cardoso Siqueira;

- 01 terreno entre os números 418 e 454 da rua Senador Dantas;

- 01 casa na rua Barão de Jaceguai no número 626

- 01 casa na rua Senador Dantas no número 120 ;

- 01 casa na rua Capitão Paulino Freire no número 114.

- 01 sítio de 87 alqueires em Biritiba Mirim.

- 02 casas na rua Cardoso Siqueira nos números : 191 e 195;

- 03 casas na rua Coronel Souza Franco nos números : 615, 603 e 641;

Em depósitos bancários havia, nessa ocasião, pouco mais de Cr$20 milhões (cerca de US$35 mil na época) na Caixa Econômica do Estado e, entre outros papéis, 12 obrigações de guerra de mil contos de réis cada.
Com a necessidade de se legalizar as despesas de manutenção da residência e de todo o patrimônio, foi então apurado o total gasto nesse setor após a morte de yayá: eram 35 mil cruzeiros na manutenção da residência e outros 71 mil cruzeiros no pagamento dos serviços, incluindo governanta, ajudante de enfermeira, lavanderia, copeira, cozinheira e jardineiro.
É bem verdade que Yayá de Mello freire era sozinha.pelo menos foi assim que decidiu a Justiça. Pretendentes, quando moça, ela os teve. E muitos. Mas nunca se casou. Preferia sempre a devoção à Igreja católica e não há quem saiba nem mesmo de algum namorado firme. Notícias e parentes pouco se sabe, além de um irmão que morreu misteriosamente numa viagem por mar à Europa. Soube-se de outro irmão natural, que certo dia teria aparecido em sua casa pedindo dinheiro para internar uma filha doente. Desse irmão também nunca mais se ouviu falar.
Sem parentes diretos, era de se esperar que surgissem pessoas interessadas em disputar parte da herança. A primeira foi Esther Pereira Garcia, que em 1961já era viúva e tinha 67 anos de idade. Morava na rua Cantagalo, no Tatuapé, e caracterizava-se como parente colateral de 4º grau de Yayá. Queria ser a beneficiária do grande patrimônio. Pouco depois, João Resce e sua mulher também se habilitaram no inventário.
Mas em 20 de dezembro de 1962 a habilitação de todos foi rejeitada. Nessa época, a avaliação do patrimônio de Yayá de Mello Freire, feita pelo Serviço de Engenharia da procuradoria Fiscal e sem contar os imóveis das ruas Bráulio Gomes, Mello Alves e Augusta, apurava um total de 113 milhões e 732 mil cruzeiros. Houve, a partir daí, algumas alterações no patrimônio, com a venda e aquisição de algumas propriedades. É certo que já não havia, nessa época, a fazenda Sertão, em Biritiba Mirim, que Yayá de Mello Freire dividia, sem sociedade, com o médico Deodato Wertheimer.
Em outubro de 1963, uma nova avaliação do patrimônio inventariado conduzia, ao longo de suas 167 folhas, aos seguintes totais: em São Paulo, Cr$661 milhões e, em Mogi das Cruzes, Cr$1629 bilhão, totalizando quase Cr$2,5 bilhões.
O processo do inventário, até a declaração de vacância da herança, caminhou com algumas ações paralelas. Joaquim de Almeida Mello Freire, por exemplo, reivindicou indenização trabalhista por serviços de curatela até o falecimento. Outras pessoas tentaram habilitação como herdeiros, entretanto em 19 de junho de 1967, foi assinada a sentença dando pela improcedência dos pedidos.
Na mesma época, Elisa Mello Freire reivindicou o recebimento de cinco por cento do valor dos bens da herança sob o título de pagamento por serviços prestados a Yayá durante o período de 42 anos.
O inventário ia assim caminhando pelo Fórum da Capital a passos lentos, obstado por ações paralelas, até que, em dezembro de 1968, o juiz Odyr José Pinto Porto determinou “andamento preferencial”, resultando, no dia 13 do mesmo mês, nas folhas 853 do processo, a sentença que declarava vacante a herança de Sebastiana de Mello Freire. O processo havia terminado, mais de sete anos após o seu falecimento, com total de 1087 páginas acondicionadas em seis volumes.
Da decisão final resultou o benefício à Universidade de São Paulo, à qual foram transferidos todos os bens de Yayá de Mello Freire.

Texto de Carolina Bardazzi e Fernando Nalesso

Obrigado a Todos que leram esta serie sobre Sebastiana de Mello Freire "Dona Yayá" foi um prazer contar a historia desta Mogiana Ilustre, em breve farei uma postagem com algumas fotos. E a serie sobre os cidadãos ilustres de Mogi das Cruzes ainda não terminou semana que vem teremos outros personagens com historias tão ricas como o de Dona Yayá e sua Família  Muito Obrigado, Wellington Rodrigo Machado...