quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Capitulo II - A Loucura e o Tratamento

A Loucura 

No final de 1918, Yayá teve a primeira manifestação de desequilíbrio emocional. Achando que iria morrer, redigiu a lápis, e sem a presença do tabelião, um testamento evidentemente sem validade.Sua segunda providencia foi distribuir as jóias que possuía entre as mulheres da casa; depois, elas foram recolhidas por sua afilhada Rosa Masullo, que as guardou à espera de que sua madrinha se restabelecesse para confirmar a doação.
Em janeiro de 1919 sobreveio uma nova crise. Yayá desconfiava de todos. Recusando alimentos, gritava que a queriam matar e que tentavam desonrá – la. Em seu desespero tentou suicídio, sendo então internada no Instituto Homem de Mello.
A notícia levada até o Curador Geral de Órfãos, provavelmente pelo antigo tutor de Yayá, Albuquerque Lins, resultou na nomeação de dois médicos para que procedessem ao exame de Sebastiana “que se achava sofrendo das faculdades mentais a ponto de não poder gerir seus bens”.
Por ocasião de seu internamento, Yayá tinha 32 anos. A partir daí, sua vida, já bastante marcada por acontecimentos trágicos, não mais foi conduzida por sua vontade.
Durante os 42 anos seguintes foi perdendo sua inteireza. Esquecida pela quase totalidade dos amigos, afastada os espaços e objetivos que constituíam seus referenciais afetivos, tornou-se, gradativamente, mais agressiva e, ao mesmo tempo, indefesa.
Os primeiros laudos sobre o estado mental de Yayá nos fornecem dados significativos para a avaliação da camisa de força tecida pela moralidade burguesa do ínicio do século, no sentido de delimitar o papel feminino.Aos olhos de hoje, as observações nela contidas parecem mais revelar os preconceitos da época e tentar comprovar a eficácia da ciência médica do que fornecer dados que possibilitassem orientar a cura.
Baseados no histórico de vida e em observações diretas do comportamento da paciente, os laudos interpretam opções, como a recusa ao casamento, como um indício da “organização psíquica desarmônica, reveladora de uma predisposição latente para desarranjos mentais”. Da mesma forma, atitudes próprias da “galanteria feminina”, talvez por muito tempo reprimidas por Yayá, ganharam classificação moral, uma vez que consideradas indicadoras de “alterações dos sentimentos éticos”, principalmente do “pudor natural do sexo”.
Durante os delírios de Yayá, afloraram desejos e fantasiosas culpas produzidos por exigências sociais e por uma educação dogmática e repressiva. Ela batia-se contra as paredes, feria-se com objetos e farpas, dizia impropérios, proclamava-se partidária dos aliados na Primeira Grande Guerra, repetia continuadamente “eu sou católica apostólica romana”, rasgava roupas, chorava, cantava, queixava-se de ser ameaçada de morte e de violações, pedia o filho que julgava amamentá-lo e embalá-lo.
Com o passar dos anos, os delírios diminuíram em freqüência e intensidade. Aos poucos, a psicose esquizofrênica – como tratado na linguagem médica moderna o mal que a afligia – evoluiu sem remissão.
Em 1952, atingira o período demência, sua fase crônica final. Yayá, embora ainda tendo algumas manifestações agressivas, estava abúlica, apática, quase inerte.

O Tratamento

Após os exames médicos que determinaram sua interdição, oficializada em abril de 1919, com a publicação de um edital, Yayá esteve por cerca de um mês em uma casa alugada na rua Apa, nº21. Só então foi encaminhada ao Instituto Paulista, onde permaneceu por pouco mais de um ano.
A pedido do curador Souza Queiroz, Yayá foi submetida à observação de uma nova junta médica. Depois da recusa, por motivos circunstanciais, de Franco da Rocha, Diogo de Faria e Alberto Seabra, a junta foi composta pelos doutores Deolindo Galvão, David Cavalheiro e Paula Lima. Chama a atenção à natureza dos quesitos respondidos. Além dos de costume, referentes ao estado da interdita, constam outros sobre as instalações que ocupava, a competência dos enfermeiros que a atendiam, as possibilidades de seu tratamento no Instituto Paulista e a conveniência de transferi-la para outro local.
O laudo apontou o depauperamento físico de Yayá e uma insuficiência hepatorenal, indicativa de um “estado de intoxicação endógena”, ressaltando a conveniência de exercícios moderados ao ar livre e de um regime dietético apropriado a toxemia por ela apresentada.
Finalmente os especialistas ponderaram que, dado o seu grau de fortuna, a paciente poderia ter cuidados exclusivos, sendo conveniente sua transferência para outro lugar que, proporcionando-lhe as vantagens de um tratamento especial reclamado por seu estado físico, “ofereça ou se adapte às condições exigidas por seu estado mental”.
Respondendo a quesitos complementares, os médicos pronunciaram–se contrários ao retorno da enferma para a sua antiga residência na rua Sete de Abril, uma vez que esta se achava em um “centro de aglomeração urbana” e não oferecia, “pela disposição de seus aposentos, a segurança indispensável a sua pessoa”. Não aprovaram também sua transferência para o Juquery por ser “aquele asilo para alienados indigentes e não ter cômodos especiais que sirvam a interdita”.
Causa estranheza a referência ao Juquery como um asilo exclusivo de indigentes. Sabe-se que lá também eram internadas pessoas de posse, a pagamento, às quais eram dispensadas tratamento e acomodações especiais. De qualquer modo, a condição financeira de Yayá permitia tratá-la sem afastá-la das pessoas mais próximas, um privilégio, então, ao alcance de poucos.
O local adequado às necessidades de Yayá foi à chácara à rua Major Diogo nº 37, para onde ela foi transferida em meados dos anos 20.Seu primeiro médico assistente foi Deolindo Galvão, que considerou o local apropriado à cura da doente, então tratada pelo método francês non restaint, assim explicado por ele: “A doente será vigiada sem o perceber. Ela terá a ilusão de que tem a liberdade, de que é senhora de seu nariz, mas de fato a vigilância será exercida prudentemente não se permitindo senão aquilo que eu julgar conveniente”.
A instalação de Yayá exigiu a adaptação do espaço, a contratação de pessoal especializado e a transferência das pessoas que com ela moravam na Sete de Abril.
Para a Major Diogo nº 37, foram com Yayá gentes e coisas. Entre estas um piano, móveis e objetos de grande valor afetivo, pois datavam do tempo de seus pais.Com ela ficaram Elizinha, Eliza Grant, sua irmã Georgina Tavolaro e antigos empregados. Para cuidar dela chegou o enfermeiro João Garcia, que permaneceria na casa por mais de 30 anos, e uma auxiliar. Poucos amigos continuaram a visitá-la.
A transferência de dona Yayá do Instituto Paulista para a casa da rua Major Diogo atendia a recomendação médica.
As condições oferecidas pela casa salvo pequenas adaptações necessárias, eram ideais, segundo o parecer do médico assistente de Yayá. Ali seria possível praticar “... a vigilância sobre a doente sem que ela o perceba, método esse curativo aplicável ao seu estado atual”, uma vez que “... nos departamentos que lhe vão pertencer poderá ela habitar a sós com a enfermeira por mim escolhida, sem comunicação com as pessoas da casa salvo quando seu estado permitir e ela desejar...”.
Iniciou-se dessa forma, em meados de 1920, o longo período de reclusão domiciliar de Yayá. Ela não sairia de casa até 1961, ano em que faleceu.
As adaptações necessárias à manutenção do isolamento e segurança de dona Sebastiana na casa da Major Diogo, foram sendo sugeridas desde 1920.Em setembro daquele ano, o Dr. Juliano Moreira –diretor do Hospício Nacional de Alienados do Rio de Janeiro e, ao lado de Franco da Rocha, considerado o maior alienista – veio a São Paulo, com a finalidade especial de examinar a interdita.
Moreira aprovou as instalações ocupadas pela enferma, porém recomendou modificações nas janelas, chegando a fazer um rascunho no qual indica as características do sistema adotado no hospício carioca.
A idéia presente nessa sugestão, a mesma que norteou outras intervenções, foi bem traduzida por Juliano Moreira ao dizer que tratava-se de instalar uma casa de saúde só para dona Sebastiana.
Na época, talvez mais do que hoje, as casa de saúde para alienados assemelhavam-se ás prisões. Eram espaços de isolamento, de manutenção do paciente em um ambiente neutro, sem estímulos, despersonalizados, livre de contatos perniciosos à psique e seguro. Seguro de modo a proteger sua integridade física, mas, sobretudo, para preservar os “de fora” da desordem causada por aquela que não seguiam as regras do convívio social. Eram também espaços de vigilância, instrumento pelo qual o especialista observava, montava o quadro da “loucura” e assim, segundo acreditava, corrigia comportamentos inadequados.
Primitivo Sette, em um relatório sobre as atividades da curadoria em 1921, nos fornece alguns detalhes da construção desse ambiente asséptico – e, ao mesmo tempo, incentivador da perda da razão-a casa da Major Diogo.
Segundo ele, o comportamento agressivo da interdita obrigou a substituição de colchões por tapetes, de lençóis por toalhas de banho, de louças e talheres por vasilhames e colheres de alumínio, materiais mais resistentes ás suas investidas destruidoras. Além do desconforto advindo do uso de matérias tão grosseiros –especialmente para quem havia usufruído de todo o bem estar possível às pessoas de alta condição social- esses objetos significavam punição e rompimento, pois não estabeleciam elos com a vida passada, não estimulavam o aflorar de lembranças, exercício de memória necessário à manutenção da identidade e da saúde emocional.
Contendo Yayá e os objetos, criou-se um espaço impessoal que nos é apresentado no mesmo relatório: “... a enferma ocupa dois dormitórios espaçosos, ora um, ora outro, e às vezes, os dois ao mesmo tempo. Estes cômodos são rigorosamente asseados, têm as paredes esmaltadas até a altura das portas, para tornar possível a lavagem, às vezes necessária; e se comunicam diretamente com o banheiro e o W.C.”
A descrição acima indica que a casa passara por pequenas adaptações: pintura e, talvez, abertura de passagem entre os dois quartos, um deles, aliás, bastante pequeno.
Embora o relatório não mencione, as janelas dos dois cômodos ocupados por Yayá, situados no canto formado pelas faces norte e leste do edifício, devem ter sido substituídas, nessa época,seguindo o modelo proposto por Juliano Moreira.
E seria estranho se isso não acontecesse, uma vez que a segurança da enferma era uma das preocupações básicas dos que a cercavam.
Como o estado de Yayá permanecia “mais ou menos estacionário e está a pedir instalações mais amplas e confortáveis”, o médico assistente da enferma, Dr. Ovídio Pires de Campos, sugeriu que se adaptasse a “atual sala de vistas da casa, anexa a um dos quartos que ela ocupa presentemente, e que apresenta, além das vantagens de maior largueza a ser muito bem batido de sol, o que não acontece com um dos atuais quartos, que se afigura muito frio no inverno.”
Dr. Ovídio sugeriu, também que se construísse “uma sala de banho no terraço que circunda a casa, com fácil e direta comunicação com seus aposentos”.
Sugeriu, ainda, modificações que visavam à segurança da interdita, como a substituição do antigo assoalho de seus aposentos por um piso de corticite e o levantamento do muro à volta da casa, de modo a pôr dona Sebastiana em “condições de absoluta segurança e a salvo de olhares indiscretos e bisbilhoteiros.”
O salão central dotado de três janelas e uma porta foi transformada em dormitório. Dali foram retirados o papel de parede, o assoalho, as portas e as janelas. Estas foram substituídas “por caixilhos e vidraças resistentes, semelhantes às adotadas nos lugares destinados a doentes como a interdita e por venezianas de madeira.” Adotou-se, também, aí, o modelo de janelas proposto pelo alienista Juliano Moreira. No piso colocou-se corticite, “piso bastante higiênico, impermeável e inteiriço”, “assentado sobre laje de cimento armado, amparada ao centro e ao longo do salão por uma parede pequena que se construiu”.
As paredes forma esmaltadas até a “altura superior ao alcance da enferma”, isto é, 2,30m, e o teto pintado.
Os outros dois cômodos ocupados por dona Sebastiana sofreram as mesmas reformas, e ao lado dos aposentos, ocupando a área do terraço, foi construído o quarto de banho, revestido de azulejos brancos, piso de cerâmica, banheira e chuveiro com aquecedor a gás.
Outra obra de vulto realizada no prédio, visando a sua conservação e à melhoria das acomodações de dona Yayá, teve duração de quase um ano, iniciando-se em 1952.
Nessa época era curador de dona Sebastiana o Dr. Luiz Antonio Figueiredo que, sensibilizado com o confinamento em que vivia a interdita, “procurou um lenitivo para sua triste existência”. As obras sugeridas pelo curador foram o fechamento do terraço contíguo aos aposentos de Yayá, que assim se tornariam um jardim de inverno, e a construção de um solário em rampa reentrante no jardim. Segundo o laudo do perito Roberto Guimarães Sobrinho, nelas deveriam ser utilizadas materiais especiais, com o vidro “triplex”, massa plástica lisa nas paredes internas e pisos moles, como os de cortiça revestida de material impermeável ou de borracha.
Quando Yayá foi instalada na casa da Major Diogo, ela foi descrita pelo Dr. Juliano Moreira com “uma moça de cor branca, magra de corpo, cabelos castanhos escuros.”
Nove anos depois tornara-se exageradamente gorda. Só raramente saía a passear no jardim ou para sentar-se no alpendre. Passava a maior parte do tempo encerrada em seus aposentos, sem fazer nada ou desfazendo a trama de um tecido, o que tomava por fazer frivolitê. Olhava as demais dependências da casa através de uma abertura existente na porta de um de seus quartos. Por uma pequena janela, que comunicava seu segundo quarto com o de Eliza Grant, passava longo tempo observando as imagens de santos que estava dispostas em um aparador. Quase não falava. Sempre asseada e penteada, nos momentos de calma “conversava” com as pessoas da casa e chamava Augusto, filho de Rosa Masullo, e o filho de uma amiga pelo nome de seu irmão e de outras crianças que conhecera.
Em seus aposentos, rigorosamente limpos, tudo era segurança. Móveis, apenas os absolutamente necessários. A cama e uma cadeira higiênica eram pregadas ao chão. O piso era liso, sem emendas. As janelas deixavam passar apenas ar e luz.
A terapêutica era simples. Poucos remédios, banhos quentes, observação. Os cuidados, muitos. Neles esmeravam-se Eliza Grant e, após sua morte em 1944, Elizinha Freire.
Permaneciam os antigos hábitos domésticos, como a preparação dos doces para o consumo anual da casa, e os trabalhos manuais das senhoras durante a tarde. Permaneciam também os rituais e, entre eles, o de se comemorar o aniversário de Yayá com um jantar especial para o qual eram convidados algumas pessoas. Por tradição servia-se peru, preparado com temperos especiais no fogão de barro do quintal. A homenageada nunca esteve presente à mesa. Pressentia-se Yayá. Nos antigos móveis e talheres, nos pratos de parede onde estavam retratados seus dois cãezinhos de estimação, Fideli e Blanchet, na reverência com que todos se referiam a ela.

Texto de Carolina Bardazzi Napolitano Camargo e Fernando Nalesso.