segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Capitulo I - A Vida de Sebastiana de Mello Freire


 Sebastiana de Mello Freire, carinhosamente tratada por Yayá, nasceu em 21 de janeiro de 1887 na cidade de Mogi das Cruzes, uma dentre os cinco filhos de Manoel de Almeida Mello Freire e Josephina Augusta de Almeida Mello.
            Até a perda dos pais, Yayá estudara em casa, sob os cuidados de Antonio de Barros Barreto, seu preceptor. A partir de então, foi interna no tradicional colégio Nossa Senhora de Sion, freqüentado por filhas da elite paulista. Yayá recebeu educação esmerada. Falava francês, tocava piano, pintava, dominava regras de etiqueta, realizava trabalhos manuais. E, sobretudo, desenvolveu sua religiosidade, talvez um fator importante na manutenção de sua integridade emocional diante dos abalos produzidos pela perda dos familiares próximos.
           O Sion parece ter sido um referencial básico na vida de Yayá. Suas amigas durante a idade adulta eram, na maioria, antigas colegas de escola. Mesmo depois de deixar o colégio, ela continuava ligada às freiras –especialmente a Mère Amedée, sua orientadora espiritual durante o período de estudante – obsequiando-as com favores e doações.
           A vida de Yayá não se resumiu a momentos de tristeza e desespero. Na verdade ela os superava levando uma vida alegre e rodeada pelos que a estimava. Yayá parece haver herdado o temperamento brincalhão do pai. Segundo o Dr. Augusto Trigueirinho, ela era uma mulher alegre que gostava de se divertir e, para isso, armava brincadeiras com amigas e gente próxima.
          Às vezes, servia a seus convidados pastéis recheados de algodão, divertindo-se em vê-los sem jeito por não poderem engolir a iguaria que, segundo fazia crer, ela mesma preparara. Até com os velhinhos aos quais distribuía mensalmente alimentos e auxílio financeiro, Yayá fazia brincadeiras. Seu alvo preferido era uma velhota, divertida, vaidosa e um pouco aloucada, a quem pessoalmente pintava os cabelos e ofertava ornamentos.
       
Yayá vivia na mansão da rua 7 de Abril, no centro de São Paulo, onde passava as horas cuidando de um sofisticado (para a época) estúdio de fotografia onde revelava inúmeras fotos de imagens de santos, seu tema preferido. Às vezes, passeava pelas ruas da pacata São Paulo do início do século XX em seu Chevrolet grande e negro. Ia a Mogi das Cruzes para os fins de semana com famílias amigas, ou ia à praia ou à fazenda em Guararema, onde fazia longos passeios a cavalo pela mata.
         Certo é que nunca seria encontrada fora de sua mansão da 7 de abril nos dias 19 de todo mês (dia consagrado a São José). Esse dia era sagrado: era o dia em que ela ficava nos jardins de sua casa, distribuindo alimentos e, infalivelmente, um conto de réis aos pobres que a tinham como protetora.
         Entre viagens de ida e vinda, Yayá de Mello Freire trazia sempre consigo algumas obras de arte e não escondia dos seus amigos mais íntimos o orgulho por um cartão que conservava sempre em local de honra. Fora-lhe dado por incentivadores dos movimentos artísticos de São Paulo em reconhecimento pelo que fez em favor das artes.
         Dona de um temperamento fechado e de uma personalidade forte, voluntariosa e exigente, Yayá centralizava a vida dos que a rodeavam. Em sua casa, ligados por parentesco ou amizade, habitavam muitas pessoas, todas, em diferentes medidas, dela dependentes.
          Lá se criou Eliza de Mello Freire, sua prima e também sobrinha de Eliza Grant, educada no colégio Sion, onde mais tarde foi professora de Educação Física, que ficaria com Yayá até sua morte. Criou-se também Rosa Masullo, uma vizinha por ela batizada que se tornou sua companheira preferida, agraciada com privilégios não concedidos aos demais moradores, como, por exemplo, conhecer o segredo de seu cofre. Rosa, mãe do Dr. Augusto Trigueirinho, foi educada no colégio Santa Inês e seu talento para a pintura foi sempre incentivado por Yayá, que lhe solicitava quadros, com os quais presenteava as amigas.
         Os que conheceram de perto apresentam Yayá como uma pessoa de hábitos simples e vida social restrita a um pequeno grupo de amigos, do qual não participavam nem mesmo os parentes residentes em Mogi. Embora desfrutando do bem estar propiciado por sua posição social, viajou para a Europa apenas uma vez, em 1914, acompanhada de Rosa Masullo, Eliza Grant e D. Hadjine, sua amiga desde os nove anos de idade.
        De sua vida afetiva pouco se sabe. Consta que teria recusado muitas propostas de casamento por considerar que os pretendentes estavam mais interessados em sua fortuna que nela própria. Mas dizem que, demonstrando certo espírito romântico, Yayá teria cultivado uma grande paixão oculta por Edu Chaves, rapaz de rica família paulista, que não se interessou por ela.
       Yayá teve sua trajetória marcada por tristes acontecimentos. Ainda muito pequena, aos 8 anos de idade, Yayá perdeu sua irmã Leonor, que morreu aos 13 anos, de tétano, ao se machucar com um espinho de laranjeira.
       Mas Yayá teve que conviver com outras perdas difíceis de serem compreendidas, principalmente para uma criança.Sua outra irmã, Benedita Georgina, a menina da pipoca, faleceu aos 3 anos de idade, asfixiada por um elo de um porta níquel feito de tricot de metal que estava em seu berço.
       Em 1899, seu pai e sua mãe ficaram doentes ao mesmo tempo e faleceram em apenas 2 dias sem um ficar sabendo da morte do outro.
       Órfãos, Yayá, com 12 anos e seu único irmão Manuel de Almeida Mello Freire Junior, com 17 anos, ficaram sob a tutela do senador Dr. Albuquerque Lins, amigo pessoal de seu pai. E por pedido de Yayá também foram cuidados por uma amiga e madrinha dela, Eliza Grant, descendente de uma família americana que chegara a Mogi das Cruzes após a Guerra da Secessão.
       Com a morte dos pais, Yayá e seu irmão, tornaram-se herdeiros dos bens familiares constituídos por um grande número de imóveis na Capital e em Mogi, valores e ações.
       Em 1905, quando Yayá tinha 18 anos foi surpreendida por um acontecimento que, anos mais tarde, faria parte também de seu destino, marcado pelo diagnostico de “insanidade mental”.
       No dia 21 de julho de 1905, seu irmão Manuel Junior que retornava de navio da Argentina com o amigo Alfredo Grant e tendo desaparecido no referido navio, concluiu se que, Manuel Junior havia se jogado ao mar. O médico de bordo, Dr. Francisco Benfica de Menezes, registrou um termo com as seguintes palavras:
“Declaro que, cerca de 1 hora da noite, fui chamado a prestar socorros a Nhô Manuel de Mello Freire, passageiro de 1ª classe, a bordo do” Orion “, que anteriormente soffria das faculdades mentaes. Ao chegar; encontrei-o presa de um acesso furioso, tornando-se necessário para conte-lo o auxilio do comissário, machinista, chefe dos criados e pessoal de bordo. Decorridos quarenta minutos seguiu-se sonno tranquillo, pelo que julguei desnecessários os meus serviços, recolhendo-me porêm ao camarote próximo prompto a attender a qualquer eventualidade, pois confiava o enfermo a dois criados. Pelas três horas fui despertar e avisado de que novo acesso o acomettia (...) Ao penetrar no camarote em que se achava, encontro-o deserto e aberta à vigia, sinal evidente de que o doente tinha se atirado ao mar. “.
      Em 4 de setembro de 1961, aos 74 anos, Yayá falece às 14:55 de insuficiência cardíaca, após ter sido submetida a uma intervenção cirúrgica, onde foi levada 13 dias antes. Era portadora de um câncer uterino.
      Dona Yayá, que possui uma historia rica e envolvente, que era de uma família abastada e que sua herança fez grande diferença para o progresso da cidade, e mesmo assim não possui reconhecimento nenhum em Mogi das Cruzes.

Texto de Carolina Bardazzi Napolitano Camargo e Fernando Nalesso.