quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Historias de Mogi das Cruzes

SUBURBIO, BONDE E TAXI

No começo, entre São Paulo e a nossa região, não havia caminho regular. Só picadas de índios e o Rio Anhembi – depois Tiete – que os selvícolas conheciam como M’Boigy ou “ rio das cobras”.
Em 1601, contratado pelo Governador Dom Francisco de Souza, Gaspar Vaz, que fora Juiz em São Paulo, abriu a primeira estrada entre aqueles dois pontos e a seguir deu inicio ao povoamento da futura Mogi das Cruzes.
Em oficio ao Presidente da Província, datada de 1869, a Câmara informou a S. Excia. que “o nosso sythema de viação é: a PE, a carros de eixo móvel e à cavalgadura”. Não é de estranhar, por isso, que para ir de Mogi a São Paulo, na primeira metade do século 19, o mogiano levasse vários dias.
A 6 de novembro de 1875, porem, uma nova era se abre para os transportes entre nós. Para o comercio, para a agricultura, para a indústria e para o povo em geral. È que nesse dia inaugurou-se o trafego da estrada de ferro do norte entre São Paulo e Mogi das Cruzes.
Só vários anos depois, entretanto, é que ficou realmente cômoda aquela ligação, com o inicio da circulação dos primeiros trens de subúrbio.  Em fins de 1911 o Dr. Paulo Frontin, então diretor da Central do Brasil, comunicava a Câmara que faria correr um trem de subúrbio diário entre as duas cidades, saindo de Mogi de manha e regressando de São Paulo a tarde. No ano seguinte passaram a correr dois trens diários e depois três.
E nova era do progresso se abriu.
Tão entusiasmada, ficou a cidade e sua gente, que a 28 de fevereiro de 1941 a Câmara Municipal fazia publicar um “Edital de concorrência publica para o estabelecimento de uma linha de bonde, a tração elétrica ou animal dentro da cidade”...
A 28 de maio do mesmo ano, com efeito, a Câmara assinou contrato com o Sr. Octavio Leal Pacheco, vencedor da concorrência. Cinco anos depois, isto é, 28 de maio de 1919, foi lançada a pedra fundamental do serviço, mas tudo ficou, no entanto, apenas na assinatura do contrato e no lançamento da pedra fundamental...
A grande verdade é que, efetivamente, os bondes não faziam falta à cidade, que era, bem pequena. Não tão pequena, entretanto, que pudesse dispensar um carro de aluguel. E ele – o primeiro de Mogi teve – aqui iniciou os seus serviços, imponente e com quatro vistosos cavalos, em maio de 1911.
O semanário “A Vida” noticiou o seu aparecimento com a seguinte noticia: “ Mogy  vae ter agora carro de praça, para aluguel. O Snr. Antenor de Souza Mello brevemente estreará o seu carro que vira a dar a Mogy um aspecto bonito e elegante e constatará que verdadeiramente vamos em progresso”.
Alias, nesse particular, outro grande passo foi o inicio de atividades de uma linha circular de ônibus na cidade. Linha de jardineiras – melhor dizendo, já que assim chamavam-se então os atuais ônibus, que nesse tempo eram abertos de ambos os lados. A linha pertencia ao Srs. Benedito Cardoso de Camargo e João Rodrigues da Cunha e iniciou as suas atividades em 1923, prestando seus serviços à população por cerca de um ano e meio. A volta completa na cidade custava trezentos réis por pessoa e uma jardineira levava vinte e cinco pessoas. Aos sábados era comum a suspensão da linha, já que as jardineiras passavam a servir aos casamentos dos bairros distantes (Biritiba, Cocuera, etc.), trazendo os noivos e convidados para a Igreja e levando-os de volta após a cerimônia.

ISAAC GRÍNBERG – MOGI DAS CRUZES DE ANTIGAMENTE - 1995



O PRIMEIRO AUTOMOVEL

Um dia, a cidade calma e sossegada amanheceu em sobressalto. Suas ruas enchiam-se de um barulho estranho, de um pipocar assim como se fosse uma metralhadora na frente de batalha. Uma metralhadora que estivesse falhando – seja dito de passagem.
E todo mundo saiu à rua.
As bocas abriam-se estupefatas e os olhos esbugalharam-se surpresos ante o espetáculo de apresentação do primeiro automóvel que veio para Mogi! E a maravilha deslizava célere, com seus oito quilômetros à hora, naturalmente, fazendo inveja àquela gente toda...
Não era de invejar-se, entretanto, a sorte dos primeiros automobilistas: é que não poucos aborrecimentos custavam-lhes seus veículos.
A coisa começava logo na saída. Para dar a partida ao carro havia, ao lado direito do painel, um buraco no fundo do qual localizava-se a manivela. E, mal o motorista dispunha-se a dar as primeiras maniveladas, alguém já vinha lá de dentro de casa com uma pequena bacia de água e sal e uma toalha. É que quando o motor pegava e o chofer tirava depressa a mão da manivela, era comum o seu braço raspar violentamente nas bordas do tal buraco do painel, ferindo-se...
Isso não era tudo, no entanto. E como exemplo vamos lembrar o episodio ocorrido num passeio ao lugar onde hoje fica o Matadouro Municipal, e pouco mais de dois quilômetros do centro da cidade.
O proprietário do automóvel convidou dois amigos para uma volta. Subiram os três no carro e lá se foram, estrada afora.
A chácara era bonita e o auto, na beira da estrada, seria uma grande garantia para a volta.
Acontece, entretanto, que à tardinha a garantia falhou. De modo algum o motor quis pegar. E o remédio foi o dono do carro sentar-se à direção e seus amigos empurrarem o veiculo ate Mogi.
Muito tarde chegaram eles às imediações da cidade. E, num violento protesto, suados e ofegantes, os dois homens largaram o vistoso automóvel e viraram-se para o motorista:
- Não empurro mais! Aqui na cidade você arranja quem o ajude...
O outro arrematou:
- E não me convide mais para passear! Eu não troco essas novidades do progresso pelo meu velho tilbury...

O carro pertenceu ao Professor João Cardoso Primo de uma tradicional família mogiana.


ISAAC GRÍNBERG – MOGI DAS CRUZES DE ANTIGAMENTE - 1995