quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Mogi das Cruzes de Hoje... E de Antigamente...

Esta é o primeiro texto que eu estou postando aqui no blog, este texto são duas historias que eu retirei de dois livros do Isaac Grinberg "Folclore de Mogi das Cruzes" e " Mogi das Cruzes de Antigamente".

Mogi das Cruzes de Hoje... E de Antigamente...

Hoje Mogi das Cruzes é uma grande cidade. Adulta. Amadurecida. Abrigando um grande parque industrial, ao seu lado de moderna e desenvolvida agricultura, que é, em muitos itens, das primeiras de todo o país. Os que nela moram gozam de um privilegio: têm as regalias de estar juntinho à capital mais as vantagens de residir numa cidade do interior.
Mas, como seria Mogi das Cruzes de antigamente?
Sim. Voltamos ao passado. Desde 1601...
Desde os mais antigos povoadores, que se estabeleceram seu primeiro pouso em Sant’Ana das Cruzes de Mogi Mirim, poucos quilômetros à esquerda do suave Anhembi.
Os primeiros povoadores com os seus problemas de plantar e colher, de arranjar braços para as suas pequenas lavouras, de afugentar os índios que queriam apossar-se do produto do seu trabalho. Com seu devotamento à religião e sua escravização às crendices. Com sua pobreza, sua simplicidade e sua doce ignorância. Com sua bravura e destemor, com seu carinhoso respeito aos mais velhos e com o incomensurável valor da maioria de seus homens, dos quais avulta, como figura de proa, a impressionante personalidade de Gaspar Vaz – símbolo do bom mogiano que viria depois...
E daqui partiram centenas de guerreiros e centenas de bandeirantes. Como partiram, centenas de anos depois, centenas de voluntários para a Revolução de 1932 e centenas de soldados para a Segunda Guerra Mundial!...
Atravessemos o tempo em que a cidade era apenas um rua. Em que o único divertimento era a visita, em que o baile chamava-se assustado e em que o Carnaval era entrudo...
Uma época em que o Teatro Vasques apresentava doze operas por ano, em que quem ia ao cinema levava a sua cadeira de casa e em que os bailes eram feitos à musica de finas orquestras de câmera...
Uma época em que militavam no futebol mogiano, quase todos os domingos, os grandes nomes do futebol brasileiro que eram Friedenreich, Siriri, Camarão, Brasileiro, Petronilho e tantos outros...
Tempo da Confeitaria do Felix... da Loja da Fama... da Farmácia do “Seu” Bento... da Confeitaria do Barroso... da Padaria do Florêncio...
Tempo em que a água da Biquinha tinha o milagroso poder de encantar os que a bebiam: quem dela provasse nunca mais deixaria de voltar a Mogi...
Muita coisa mudou. Só não mudou o espírito progressista do povo, sua capacidade de trabalhar e de progredir, o brilho invejável de sua mocidade, a tradicional hospitalidade mogiana que sempre recebeu bem a quantos no seu município desejam residir e trabalhar – e de que são marcante exemplo todos os estrangeiros que para cá vieram e especialmente os milhares de japoneses que vivem entre nós.
Porque os novos desejam saber do passado e os velhos querem relembrar seu tempo...

Isaac Grínberg, Mogi das Cruzes de Antigamente, 1995


A Lenda das Cruzes

Ate hoje não está bem explicado o por que do “das cruzes” no nome de Mogi. Há pelo menos dez versões diferentes – nenhuma tão conclusiva que possa eliminar as demais.
Entre elas há uma lenda, que colhemos há algum tempo. Aqui vai ela:
Há muitos e muitos anos atrás morava em São Paulo de Piratininga um moço pobre e trabalhador que se apaixonou pela filha do patrão, um homem rico e influente. A moça também apaixonou-se pelo rapaz, mas não podia nem sequer vê-lo porque seu pai não admitia o casamento e tudo fazia para que eles se odiassem.
Não conseguindo que a filha esquecesse o moço, o pai chegou a arquitetar a sua morte. E numa noite, quatro de seus melhores capangas incumbidos de matar o jovem, decidiram apenas expulsa-lo da cidade e fizeram-no embrenhar-se na mata sob a promessa de nunca mais voltar a São Paulo.
A moça, quando soube que seu pai mandara matar o amado, ficou inconsolável e chorou vários dias sem parar.
Um dos capangas, velho servidor da família, penalizado com o sofrimento da jovem, resolveu confiar-lhe o seu segredo para que ela sofresse menos – sabendo que o rapaz estava vivo.
A moça ficou muito contente com a noticia e decidiu não descansar enquanto não se juntasse ao seu amor.
Para isso rezou ardentemente, com todas as suas forcas, pedindo aos céus que lhe indicasse, por um sinal, onde estava o jovem.
Suas preces foram ouvidas e nessa mesma noite apareceu no céu uma cruz. Vendo-a, a moça compreendeu que aquele era o sinal que havia pedido. Assim, deixou sua casa e seguiu viagem na direção da cruz.
Mal saiu dos muros de São Paulo quando, logo à entrada da mata que circundava a cidade, viu outra cruz. Acompanhou-a e foi seguindo as cruzes que lhe apareciam a cada passo.
Andou dias e dias ate que chegou a um descampado, onde havia uma pequena casa e um inicio de plantação. E lá encontrou, afinal, o seu amado!
Conta, ainda a lenda que muitos anos depois, quando os primeiros colonizadores chegaram à região – que se chamava Mogi – eles já encontraram lá o feliz casal rodeado de filhos.
E ao ouvirem da moça a sua bela historia, decidiram perpetuar o fato e homenagear a vitoria do amor, acrescentando o “das cruzes” ao nome de Mogi.

Isaac Grinberg, Folclore de Mogi das Cruzes, 1983